terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Sugestões para a semana

Livros

"A forma das ruínas", Juan Gabriel Vasquez, Alfaguara, 571 páginas. Para já o melhor livro editado neste ano. Sou um apreciador deste escritor colombiano, já tinha lido o soberbo "As Reputações" (que recomendo) e "O barulho das coisas ao cair", tem uma escrita ritmada, excelente construção de diálogos e neste livro surge um personagem fascinado por teorias da conspiração que marcam a história da Colômbia e dos Estados Unidos.

"Heinrich Himmler", Peter Longerich, D. Quixote, 911 pág. Comprei na última semana de 2016 esta biografia considerada um dos melhores livros do ano pela mais reputada crítica mundial. É fabulosa, bem escrita, sem se perder nos detalhes dos quais é muito rico o livro, e descreve um homem fraco, que fez mal ao mundo, e que nada tinha de brilhante. Apenas a sua determinação em sobreviver o levou a um dos cargos mais altos no partido nazi. É imperdível.

Cinema

Na televisão, o filme da semana passa amanhã no TVC2 ás 22h, "Se as montanhas se afastam", de Jia Zhang-Ke, um retrato poderoso e sublime da China contemporânea.
A comprar esta semana com o Público, o realismo de "I, Daniel Blake", do Ken Loach, o melhor de 2016.
Na Cinemateca o ciclo integral, que se prolonga até Abril, de Ernst Lubitsch, um dos padroeiros da Sétima Arte, e chamo a atenção que durante uma semana terão a oportunidade de viver a experiência que muitas pessoas tiveram nas primeiras décadas de Hollywood com os filmes a serem acompanhados ao piano. Vejam no site da Cinemateca o cartaz.

Séries

Perto da primavera começam a aparecer as séries de qualidade. Já estreou Billions na segunda temporada, passa ao sábado à noite, a excelente mini-série "Big Little Lies" segundas 21.45h, com Reese Whiterspoon e Nicole Kidman. E em homenagem ao Bill Paxton que morreu esta semana espreitem a série de acção Training Day baseada no filme com Denzel Washington e Ethan Hawke. Todas estas séries estão no TVSéries

Documentário

Na RTP2 passam excelentes documentários, recomendo que deixem a gravar por volta das 12h, diariamente, "Mundos Secretos". Para quem gosta de arqueologia e do estudo das velhas grandes civilizações vão ter muito prazer.

Restaurante

Duplex no Cais do Sodré. Cozinha requintada com experiências diversas, bom ambiente, serviço muito simpático.

Os erros da Caixa e as Offshores da vergonha

Dois temas marcam a agenda: as trapalhadas da Caixa Geral de Depósitos e os 10 mil milhões que voaram para Offshores, esquivando-se à nazi máquina fiscal portuguesa. A propósito deles, deixo várias notas.
O erro político na CGD – Ninguém tem dúvidas hoje que a escolha e nomeação de António Domingues (AD) foi um enorme erro de cálculo, causando ao Governo a sua maior crise, do qual o mesmo é o principal responsável. Lição a tirar – uma bomba atómica não pode circular pelas ruas sem causar danos.
O erro dos comentadores sobre AD – Para quem não acompanha a banca, quando se anunciou AD, foi quase uma garantia de excelência na futura gestão da CGD. Não houve comentador que não rasgasse elogios, tirasse o chapéu ou se referisse a ele como uma sumidade dos números. Lição a tirar – vejam quem são os comentadores que dizem estas coisas, e depois lembrem-se se eram os mesmos que endeusaram Ricardo Salgado, mas que no dia da sua queda eram as primeiras das hienas. Vão ver que são os mesmos. E as hienas não são credíveis.
O erro de bom senso de AD – vamos ser claros, houve uma enorme dose de falta de bom senso de AD. Se ele fosse nomeado administrador de qualquer outro banco, ninguém tinha a nada a ver com o património e interesses dele, isso é matéria para os respectivos accionistas. Agora, os accionistas da Caixa são todos os portugueses, quem quer ir para lá, quem quer que seja, tem obrigação de transparência e de mostrar a sua declaração de rendimentos e património. Ponto. Lição a tirar – todos os ídolos têm pés de barro, se querem esconder alguma coisa não aceitem lugares de exposição pública.
O erro de percepção mútua – em domínios de transparência não pode haver negociações. Não sei quem mentiu, se AD ou Mário Centeno, porém, é evidente a falta de tacto político do ministro, que me parece competente e uma pessoa de bem, mas que não pode deixar enredar-se como um garoto nestas teias onde é visivelmente ingénuo. Lição a tirar – algo que já aprendi há muito tempo: Pinóquio não mente, o nariz é que cresce muito.
O erro de carácter de AD – um ex-MRPP, homem que defendia naturalmente o proletariado na sua juventude, tornou-se segundo consta uma criatura com 4 milhões no banco, um barco em Vilamoura e casa de luxo no centro de Lisboa. Apesar disto, ainda fomos todos nós portugueses, que não vivemos um clima de abundância, a pagar-lhe os advogados. É lamentável a sua falta de vergonha. Lição a tirar – no MRPP, ele e Durão Barroso, por exemplo, aprenderam que há 156 maneiras de ser um pulha. E ele sabe-as todas.
As Offshores da vergonha – esta semana soubemos que 10 mil milhões de euros voaram para Offshores, escapando à verdadeira Gestapo que é a Autoridade Tributária portuguesa. A mesma que é exímia a vasculhar os cêntimos nas facturas de manicures e merceeiros, que vê à lupa contas de micro empresas, que chateia e emperra a vida de pequenos empresários. Mas 10 mil milhões não conseguiram detectar. Para lá disto, o palerma inculto que se acha engraçadinho, Paulo Núncio, que tutelava a AT quando era secretário de Estado, já veio dizer que não teve conhecimento de nada, é o marido traído desta triste história. Pois, é natural. Exigiram sacrifícios a todos os portugueses que se esforçam por cumprir, especialmente os mais humildes, e depois cai-lhes a máscara. Lição a tirar – ser forte com os fracos é uma virtude dos canalhas. Os bandalhos andam de joelhos perante os mais fortes.

Marcelo tornou-se o maior inimigo de si próprio

Se perguntarem a qualquer português se gosta de ver Marcelo em Belém, tenho a certeza que a generalidade daria uma resposta positiva, inclusivamente muitos que não votaram nele. Só que a sua excessiva exposição, a incontinência mediática, levam a uma série de intervenções que minam o seu próprio caminho.
Marcelo Rebelo de Sousa mantém uma popularidade inabalável, mas perdeu o estado de graça pois está a «ficar mal com todas as forças políticas», como esta semana disse Pedro Santana Lopes, que tem elogiado vastíssimas vezes o Presidente da República (PR), no seu comentário na SIC. Quais são então as razões para o sortilégio de ter começado o tiro a Marcelo?
Por um lado, muitos eleitores do PSD entendiam que ele não demoraria muito tempo a desfazer a geringonça, criando a oportunidade para que Passos Coelho voltasse ao poder. E não convivem bem com o facto de um seu militante e ex-líder seja o maior apoiante da solução governativa congeminada por António Costa, um apoio que funciona quase como um salvo-conduto para a legitimidade que não obteve directamente com uma vitória nas urnas.
Por outro lado, entre PS-PCP-BE, que sempre elogiaram a maré de paz e uma coabitação quase perfeita com Belém, caiu mal a intervenção de Marcelo no caso Centeno, sentindo que um Presidente não deve interferir na acção governativa. Sejamos claros: um PR não existe para deitar Governos abaixo, mas sim para ser um vigilante activo das instituições democráticas, criar um ambiente saudável dos portugueses relativamente aos poderes públicos e gerar consensos para que tudo corra bem a Portugal.
«Um filme só com clímaxes é como um colar sem fio, desfaz-se. É preciso ir construindo até nos grandes momentos. E às vezes devagar». Estas palavras são de “The Bad and the Beautiful” (Cativos do Mal, em português), um filme de Vincente Minnelli. É que a presidência de Marcelo é diariamente uma construção de clímaxes, simpáticos, afectivos, até ao dia em que surge o verdadeiro momento de confronto institucional e, aqui, nem a sua enorme popularidade lhe traz qualquer almofada de conforto numa querela com todos os interlocutores partidários.
Ao contrário dos ultramontanos sociais-democratas, eu não tenho quaisquer saudades de Cavaco Silva e muito menos da sua rede clientelar do cavaquismo que ungiu uma série de medíocres e os transformou em milionários. Mas cumpre a Marcelo entender que já não é comentador, é o Chefe de Estado. Que um abraço a quem precisa é tão significativo como dar uma palavra mais dura, mas sem interferir no normal trabalho diário das instituições.
Porque Marcelo não demite ministros, isso cabe ao Primeiro-Ministro, a ele compete apenas aceitar a sua designação ou demissão sob proposta de António Costa. E é tempo de perceber que tem de vestir as vestes franciscanas do recato mediático mais vezes.
No “Sacrifício”, de Andrei Tarkovsky, perguntava-se: «É difícil viver no silêncio?». Claro que é. E nestes tempos de turbilhão de novidades ao segundo das redes sociais ainda mais. Mas o silêncio é uma das melhores armas em comunicação. Porque é muito difícil combatê-lo e arranjar argumentos contra ele. Chegou o momento de Marcelo fugir aos microfones, sob pena de se tornar o maior inimigo de si próprio.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Há petróleo em Lisboa

O meu artigo desta semana no ECO é sobre turismo e sobre Lisboa, pode ler aqui.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

O turismo em Lisboa

O turismo é bom para Lisboa. Se não houvesse turismo a nossa economia ressentia-se. O turismo é o nosso ouro negro. Estas são três verdades evidentes e só quem está de mal com a vida não vê.

Mas há uma variável nesta equação para este casamento ter sucesso, é que não se podem esquecer os lisboetas que vivem em Lisboa. Não se pode mudar a cara de uma cidade só para se agradar aos turistas, até porque quando isso acontecesse, e se a descaracterizassem, os próprios turistas deixavam de gostar dela.

De resto, os lisboetas recebem bem e gostam de turistas a circular e a enriquecer também a sua cidade. isso é tão óbvio que podiam poupar o dinheiro gasto em estudos.

Os vergonhosos pais de Maddie

Os pais da Maddie McCann são dos elementos mais frios, mais sinistros, mais bizarros que me lembro na minha vida.

Ontem, e bem, o CM dá-lhes manchete para expor toda a sua filha da putice para público e crítica. Estas criaturas vendem «exclusivos da dor» por 100 mil euros no Reino Unido e 400 mil nos EUA.

A partir de hoje era nunca mais darem um segundo de atenção a estas almas desgraçadas, pais canalhas que exploram a inexplicada(?) morte de uma criança que teve o azar de ser filha desta gente sem espinha dorsal.

O mundo era bem melhor sem estes dois répteis.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Marcelo matou Cavaco

Todos já viram “O Padrinho” e por isso facilmente se recordam que o “consiglieri”, Tom Hagen, costumava avisar que «Mr. Corleone é um homem que insiste em saber logo as más notícias». Nós, portugueses, sem o querermos nem desejarmos saber, tínhamos quase todos os dias más notícias durante os tempos do Governo PSD/CDS e de Cavaco Silva.

Não cabe neste artigo analisar a bondade dessa governação ou os estados de alma que eram ciciados de Belém, o que registo é que, na sua generalidade, os portugueses estavam fartos de más notícias e do clima telúrico que se instalou no nosso País. E um dos principais factores de desalento com os políticos e o ambiente confrangedoramente triste que se vivia, passava pelos penosos últimos anos e dias de Cavaco Silva em Belém.

Eu não sou nem de esquerda nem de direita, não tenho partido, não sou fanático de Marcelo Rebelo de Sousa, nem votei nele, por isso ainda mais à vontade estou para escrever livremente sobre a maneira como tenho gostado da sua actuação. O seu magistério não é o de influência é o dos afectos. Em cada gesto de Marcelo há vida, há esperança, há sentimentos positivos, contrastando com uma figura de cera que diariamente ia perdendo o seu brilho e credibilidade.

Marcelo é gente, gosta das pessoas, dá beijinhos e abraços, semeia uma alegria contagiante, enquanto Cavaco se ia perdendo no labirinto da sua solidão, da sua misantropia. Marcelo percebeu que os portugueses precisavam do seu abraço e do seu optimismo, depois de vários anos fustigados pelo chicote da austeridade e dos números sem alma. Sim, a política são as pessoas, a política é lutar todos os dias por melhorar a vida das pessoas. E é tempo da política se impor aos balancetes e às contas de merceeiro.

Quem conhece Marcelo sabe do seu gosto por partidas e algumas traquinices. Todos sabemos que foi o palco da TVI que lhe granjeou a estima e a simpatia dos portugueses, a sua imagem de “professor” impôs-se na percepção das pessoas ao seu lado instável e hipocondríaco.

Do melhor romance editado em 2015, “Assim Começa o Mal”, de Javier Marias, retiro a seguinte passagem: «Há aqueles que desfrutam com o engano, a astúcia e a simulação, e têm uma enorme paciência para tecer as suas redes. São capazes de viver o longo presente com um olho posto num futuro impreciso que não se sabe quando vai chegar». Porque também há todo este lado num político hábil como Marcelo. Demorou 15 anos a cumprir o seu sonho, mas ele ali está, com toda a naturalidade, em Belém com índices de popularidade que agregam todos os segmentos sociais e todas as facções partidárias.

No início do seu mandato, Marcelo foi convidado para fazer a apresentação de uma iniciativa muito válida da estação pública de televisão, o regresso dos Livros RTP. Aconteceu na livraria Bucholz, eu estava presente, e no final comentei para o seu assessor de imprensa, o Paulo Magalhães, que era toda uma diferença para o seu antecessor estar a falar de improviso, com humor e sabedoria, a reviver as suas memórias dos tempos que ali passou em animadas tertúlias com outros grandes nomes da língua portuguesa e com carinho evidente pela literatura, pelas artes, enfim, pela promoção e divulgação da nossa cultura que deve ser matriz essencial dos inquilinos de Belém.

Marcelo dá confiança e sente-a retribuída pelos portugueses. É certo que ainda não se deparou com fortes tempestades institucionais, mas tem contribuído para uma estabilidade que acalma e tranquiliza as pessoas e os mercados. Não sabemos o dia de amanhã, apenas tenho a certeza que Marcelo já empurrou Cavaco, de quem ninguém tem saudades, para um triste rodapé da nossa História. Mais que não seja, neste ano de mandato o mais positivo de tudo é que Marcelo matou Cavaco.

(Meu artigo no ECO)