segunda-feira, 1 de maio de 2017

Sugestões para a semana

Livros

"Conversas finais", Bento XVI, D. Quixote, 285 páginas. Quando teremos em breve a visita do actual Papa a Portugal, li com muito agrado estas conversas do Papa emérito com Peter Seewald, um homem genial, discreto. A sapiência tranquila tão ausente dos dias de hoje.

"Norma", Sofi Oksanen, Alfaguara, 329 pág. O regresso da escritora finlandesa de origem da Estónia. Um romance fabuloso que não atinge o patamar do excepcional "A Purga" que a seu tempo recomendei, mas é um grande livro.

"O Homem Ausente", Hjorth & Rosenfeldt, Suma, 589 pág. Terceiro da saga de Sebastian Bergman, um  grande policial nórdico, e recomendo que leiam os outros dois pois a história é autónoma mas sequencial na vida dos personagens.

Cinema

No TVC3, quinta, 0.15h, um dos melhores filmes sobre jornalismo, de Sidney Lumet
No TVC1, sexta, 2.50, um dos mais interessantes produzidos em Hollywood no ano passado. "Experimenter", de Michael Almereyda, sobre o condicionamento das percepções.
Chamo já a atenção para o mini-ciclo que a Cinemateca a partir de 15 de maio dedica a Otto Preminger, discípulo de Lubitsch, e um dos grandes criadores de Hollywood.

Séries

A terminar esta semana na 2, a excepcional série italiana "1992", que quase passou despercebida e não merecia.
O regresso de Fargo com a terceira temporada e em que o primeiro episódio é superlativo. No TVSéries às 23h ao domingo.

Documentários

Quinta, 1h, na TV5, Hergé e Tintin, sobre o criador e a personagem da BD que encantou todas as gerações
No NG,, quinta 23.45h, "A ascensão dos nazis", documentário que conta toda a ascensão de um pesadelo

Restaurante

Na Rua do Cruxifixo, o Bella Ciao, um excelente italiano e com preços muito em conta e com um ambiente muito simpático e típico.

Salgueiro Maia não merecia o 26 de Abril

No dia 25 de Abril escrevi que “o problema maior do espírito de Abril é que as pessoas já não se lembram bem de Salgueiro Maia porque, depois da Revolução dos Cravos, veio o pesadelo de uma corja de abutres e corruptos que transformaram a alegria da liberdade num jardim de negociatas e comissões em que os seus despojos tivemos nós de pagar”.
Porque se há algo que semeia a instabilidade e a revolta das pessoas contra um regime, contra a classe política, contra instituições que devem ser impolutas, é vermos todos os dias o clima de impunidade que abrange uma série de criaturas que mata empresas, se serve dos cargos que ocupa para depois, ou durante, enriquecer.
É a corrupção que vai corroendo os alicerces da democracia, é a desconfiança com os detentores de cargos públicos que semeia o afastamento de eleitores e eleitos e constrói os elevados índices de rejeição de uma actividade, a política, que é nobre e deve servir para a melhoria da comunidade.
Temos 43 anos de liberdade e isso é uma conquista excepcional que devemos celebrar todos os dias. Eu acredito na política, eu acredito nas pessoas de bem — mas são cada vez mais um oásis no deserto — que trabalham tendo em vista o bem público e o crescimento a todos os níveis da sociedade.
Porém, não convivo bem com corruptos e especialistas em “dar uma palavrinha” que fizeram do que se conquistou com o 25 de Abril no seu parque de diversões do Monopólio, tornando-se milionários, com os portugueses a pagarem sucessivamente todas as aleivosias, todos os erros de gestão, todas as dívidas de bancos que serviram para negócios especulativos de alguns marajás.
Escrevia o Nuno Garoupa, um dos bons, na semana passada que “ninguém pode fingir que Portugal é um oásis sem corrupção, sem gestão danosa, sem tráfico de influências e sem grande criminalidade de colarinho branco”. Pois não pode. Porque é isto tudo que mina os valores de Abril.
O problema é que, “mea culpa” também, todos nós contemporizámos para esta impunidade vigente. Nunca ninguém se revoltou a sério. Porque só com barulho se combate a corrupção, que navega melhor no silêncio da lama, nos murmúrios das salas sem alma, nos favores debaixo do pano.
A partidocracia, os aparelhos partidários de gente que cresce ali sem nada saber fazer na vida, o financiamento de campanhas eleitorais, são a seiva de onde florescem corruptores e corruptos e que causam o sangramento da democracia e da liberdade.
Devemos estar todos gratos aos capitães de Abril pela liberdade em que vivemos, mas o ar que respiramos não é o desse dia histórico, é perverso e cheira a mofo pelo perfume da impunidade. A corrupção não pode matar a esperança do dia seguinte. Salgueiro Maia não merecia o 26 de Abril.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Notas sobre as eleições francesas

Não escrevi até agora nada sobre as eleições francesas. Não o fiz porque conheço a política francesa e ainda melhor as dinâmicas de campanhas eleitorais e neste momento qualquer observador tem de ser cauteloso. Mas há 5 notas que deixo:

1- Ao contrário de outros, eu não comento o que não sei, por isso alguns deviam estar calados sobre estas eleições, porque não percebem nada do estado da arte gaulês e muito menos de campanhas e comunicação política;

2- Há apenas uma certeza:... neste momento o cenário partidário tradicional morreu. A esquerda socialista implodirá, a direita tradicional que sempre teve grupinhos e muitos chefes, vêem o seu poder esvaziar com a ascensão do partido Le Pen e a afirmação de um centro, que tinha como referência Bayrou, e passa a ter Macron;

3- como em todo o mundo, crescem dúvidas sobre os institutos de sondagens. Até que ponto esta realidade de 4 candidatos presidenciais teoricamente, e tecnicamente, empatados corresponde à realidade é algo que só será dissipado depois das urnas encerrarem;

4- também como em todo mundo, vemos a radicalização dos discursos e a ascensão das pontas - esquerda e direita - do espectro partidário com Mélenchon e Marine.

5- Tenho saudades de Mitterrand, Rocard e até de Giscard e Chirac, e muitas mais de De Gaulle. Outros homens, outros tempos.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Sugestões para a semana

Livros

"Memórias Anotadas", José Medeiros ferreira, Temas & Debates, 446 páginas. Homem inteligente e culto que, infelizmente, partiu cedo. E como diz neste seu livro que é um testemunho sobre um tempo onde homens de outra categoria circulavam por aí, foi um homem que podia ter sido melhor aproveitado por Portugal.

"Memórias", Raul Brandão, Quetzal, 622 pág. No âmbito dos 150 anos do seu nascimento, várias edições surgiram deste grande escritor português. Neste volume estão reunidas as memórias que anteriormente estavam divididas em 3 tomos. Se na anterior sugestão tivemos alguém que conheceu a política e a cultura portuguesa no final do século XX, aqui temos a descrição da passagem do século XIX para o XX. Ambos interessantes também desse ponto de vista.

"A sétima função da linguagem", Laurent Binet, Quetzal, 467 pág. Acabei de o ler no sábado, é um romance sobre a morte de Roland Barthes, onde pontificam uma série de grandes referências da cultura francesa e também a disputa de Giscard contra Mitterrand. Livro interessantíssimo, cheio de nuances culturais, que se diverte com a curiosidade intelectual do leitor.

Cinema

Em casa volto a mencionar no TVC 2, na sexta às 17.25h, a possibilidade de verem um dos melhores filmes do ano passado: "Mustang" de Deniz Gamze Eruven.
Também no TVC 2, na quinta, um ciclo de ficção científica dos anos 70, com dois de culto "Soylent Green" e "Zardoz".
Nas salas, em vez de discutirem a qualidade dos nomeados para os Óscares, sugiro que vejam CINEMA. Aproveitem o ciclo no Nimas com um dos melhores realizadores da história do cinema: Kenji Mizoguchi. Dos 9 filmes a apresentar em cópias restauradas, só não vi um. «A Mulher de quem se fala». de resto têm duas obras-primas, «Os contos da Lua vaga» e «Os amantes crucificados» e depois os outros seis, especialmente «A Imperatriz Yang Kwei  fei», são de uma beleza extraordinária. Não percam.

Séries

Para quem só leu estas sugestões hoje, e evitando já que me apareça alguém a mencionar séries que eu conheço, chamo a atenção que estas sugestões são sobre as novidades da semana ou alguma série que esteja a passar despercebida no momento e não sobre as que considero melhores na história das séries televisivas. Posto este aviso para os mais incautos, chamo a atenção para a estreia, hoje, 22.45 no TVSéries, da última temporada de "The Leftovers" e não posso deixar de criticar o pornográfico horário em que a fox Crime decidiu estrear na ultima sexta (ou melhor, sábado á meia-noite) a 5a temporada da excelente "The Americans"temporada de "the Americans".

Documentários

Às terças, na RTP2, tem passado um excelente documentário sobre a América nos anos 70. por volta das 23.30h podem ver uma das décadas mais marcantes na televisão, na política, na cultura.
Na quarta, para os amantes da pintura, também na 2, a história de um pintor que nasceu grego e que marcou a Idade de Ouro de Espanha: "El Greco". Será a partir das 23h.

Restaurante

Se quiserem quando saírem à noite (mas também podem almoçar) optar por um restaurante simples, de comida portuguesa, mas de atendimento simpático e ainda por cima com preços em conta para a qualidade que é apresentada, procurem O Bacalhau na rua de São Paulo.

Cristiano Ronaldo nunca foi a Torremolinos

É muito difícil arranjar adjectivos para ilustrar com justeza as proezas desportivas de Cristiano Ronaldo. Todo o mundo o conhece, é o desportista que mais dinheiro ganhou em 2016, é feliz a fazer o que gosta e nunca foi a Torremolinos em viagem de finalistas.
Este não é um artigo sobre futebol, é sobre a força mental que deve estar na base da criação do sucesso. CR não nasceu em berço de ouro, não teve uma infância fácil, foi criado com amor mas numa família que sofria para todos os dias ter pão na mesa.
Para lá dos seus golos e troféus, o seu melhor exemplo e legado é a maneira como fintou as curvas da vida com mentalidade de campeão. Porque o seu mérito é a capacidade de trabalho, a ambição de ser melhor todos os dias, querer ganhar e superar-se para bater todos os recordes.
CR é um empreendedor que tem por base empresarial o seu talento inato. Apostou todos os dias muito forte na sua área de actividade, trabalhou mais do que o horário de expediente para limar as arestas do seu negócio, aperfeiçoá-lo para se tornar letal como produto e limando as suas debilidades. Teve uma boa gestão de carreira e escolheu os mercados onde podia explodir, seleccionou parceiros e instituições que o valorizaram e optou por uma equipa profissional que o projectou com comunicação e marketing de topo.
É esta a base do sucesso de uma empresa. CR é uma marca mundial, um ícone universal, tão poderosa como a McDonald’s, Nike, Mercedes, porque assenta na honestidade de se erguer do nada e todos os dias, com trabalho, esforço e suor, continuar a atingir todos os objectivos a que se propôs.
E diverte-se também. Há tempo para tudo. Todo o trabalho honesto merece lazer. Mas tenho a plena convicção que para ter sucesso nunca se perdeu em disparates nem selvajarias. Era bom que muitos jovens olhassem mais para o CR que os pode inspirar. Todos os dias devem querer saber mais, ter curiosidade intelectual para descobrir mais coisas, porque o saber nunca ocupa lugar.
Não deve ser motivo de orgulho para ninguém destruir um hotel, atirar colchões para uma piscina, vandalizar bens alheios. O objectivo que deve nortear as nossas vidas é sermos melhores, trabalharmos para isso, para, posteriormente, termos o reconhecimento merecido ao nosso empenhamento diário.
O episódio deplorável dos meninos em Torremolinos é tudo aquilo que não interessa a ninguém e que deve motivar uma profunda reflexão, em primeiro lugar nos pais, e na sociedade. CR até tem um grito peculiar, quase primitivo, parece o momento de libertação de todas as pressões de um jovem tímido que alcançou o sucesso, mas não ficará na história por nenhuma barbárie. Seria bom olhar mais vezes para ele como modelo do Portugal que queremos.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

As "tias ricas" de Dias Loureiro

Causou profunda repulsa a qualquer pessoa de bem a notícia de que o Ministério Público arquivou um inquérito a Dias Loureiro e Oliveira e Costa sobre o caso BPN. Não tendo conseguido provar, mas mantendo a suspeita, os crimes de burla qualificada, branqueamento e fraude fiscal qualificada.
A política serve para melhorar a vida das pessoas, da comunidade, e não para enriquecer alguns que se servem dela para a partir da sua circulação nas salas e restaurantes de poder se tornarem em magos de negociatas e comissionistas de eleição.
Dias Loureiro e Oliveira e Costa são apenas dois de muitos mais rostos que saíram de uma safra sob o manto protector do cavaquismo. Um bando de nulidades e mangas de alpaca que chegaram ao partido, e depois ao Governo, com uma mão à frente e outra atrás e que através dos contactos e de «uma palavrinha» foram crescendo no mundo dos negócios e, em muitos casos, à custa do erário público.
As intimidades e conveniências foram semeadas no poder, floresceram com os fundos estruturais que vinham da Europa e que mais pareciam uma torneira sem fundo como o ouro do Brasil no tempo de D. João V. Depois, sem uma lei do financiamento partidário dura e transparente, eram milhões a entrar sem qualquer controlo. Era um tempo em que se D.Dinis vivesse e perguntasse o que D. Isabel trazia no seu regaço, ela, mulher séria, teria de dizer com verdade: «são malas, senhor, são malas». Sim, malas cheias de dinheiro de diversas proveniências para campanhas eleitorais.
Relembro que têm sido todos os portugueses, dos mais humildes aos com mais posses, que têm pago uma série de descalabros na nossa economia, na banca, em grandes empresas e que assistem a isto tudo sem poderem revoltar-se. Já lá vão 15 mil milhões de euros dos nossos bolsos para safar alguns que continuam a circular impávidos e serenos em restaurantes da moda e alguns ainda têm a pouca vergonha de abrir o bico e comentar o estado da arte.
Este bando de escroques andou sobre o gelo, sem medo, porque ninguém os pune, ninguém consegue provar a ganância rapace destas aves de rapina. Uma alcateia de gente sem espinha e que se está marimbando para nós que temos de viver asfixiados pela austeridade, porque eles estão bem nas suas casas de luxo, nas suas viagens por paraísos tropicais onde, por acaso, se esconde muito do dinheiro sujo.
Sempre que ouvia e via esta ralé moral lembrava-me da “Máscara” (Persona) de Ingmar Bergman: «cada tom de voz uma mentira, cada gesto uma falsidade, cada sorriso uma tristeza». Eu, como o Ministério Público, não os posso acusar de nada. Não tenho provas para isso. A nossa condenação e repulsa é o nojo que sentimos por estas criaturas que se tornaram milionárias sem sabermos muito bem como. Se calhar até sabemos: são as famosas “heranças”. Tantas “tias ricas” têm Dias Loureiro e a restante canalha. Que sorte que têm neste pobre País.

Agustina e o anormal holandês

As redes sociais vibraram com piadas sobre as declarações de um holandês inadjectivável, como diria o João Bénard da Costa, que se referiu estupidamente a Portugal. Na sua estupidez de quem foi arrasado nas últimas legislativas e na pequenez de quem já adulterou o seu próprio currículo, revelou uma visão pequena e mesquinha do seu próprio carácter.
Portugal deu mundos ao mundo, é um dos clichés mais verdadeiros que alguém inventou. Mas a epopeia pelos mares de um pequeno País, que só podia crescer pela via marítima, que fez das suas fraquezas forças e com sagacidade e engenho levou os valores ocidentais por todos os hemisférios devia ser mais estudada e respeitada.
Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Bartolomeu Dias não têm hoje a notoriedade de Rembrandt, Vermeer ou Van Gogh, se calhar devíamos fazer mais para a projecção da nossa História, é certo. Mas a sua relevância para a globalização será eterna. Não é um labrego holandês que nos tira o orgulho pelos feitos outrora realizados.
Não gastamos em «mulheres e copos», aliás, muitas famílias portuguesas vivem dificuldades para pôr o pão na mesa e levar uma vida com alguma qualidade. Não somos um País rico, somos é há décadas um País mal governado onde quem devia cuidar de nós em pouco tempo passa dos aparelhos partidários para a mesa do Ritz e para as comissões das negociatas à mama do Estado. Vejo muitos milionários que andavam com uma mão à frente e outra atrás antes de passarem por Governos, isso vejo.
Mas os portugueses não enriqueceram. Longe disso. E triste fico, e todos deviam ficar, quando lemos que a editora de Agustina Bessa-Luis, a Babel, acha muito caro o valor mensal de 1.500 euros que paga a uma mulher de mais de 90 anos e que está doente. Isso é chocante quando se toca numa das maiores escritoras de língua portuguesa.
Agustina é património português, a riqueza da sua escrita é tão superlativa como a grandeza dos nossos Descobrimentos. Era bom que tantos de nós que gozámos e reagimos a um holandês de caracolinhos que deve ter uma vida cinzenta e medíocre, não deixássemos de reagir a esta degradante e moralmente miserável notícia que vilipendia uma grande mulher e uma grande criadora, uma artista das palavras em português.
A editora diz que Agustina vende pouco. Mas todos se lembram do momento em que Paulo Teixeira Pinto adquiriu a Babel e a exibiu como a jóia da coroa. Eu não me esqueço, tenho memória. Se calhar venderiam mais copos de vinho e facturariam mais com um bordel, seguindo as pisadas do aforismo imbecil do holandês. Isto é lamentável e obscenamente vergonhoso.
Dizia Agustina que «os portugueses são profundamente vaidosos. Quando me dizem que eu sou muito vaidosa, eu, nisso, sinto-me muito portuguesa. (o português) Apresenta uma espécie de capa e de fisionomia de humildade, modéstia, submissão. Mas não é nada disso, é justamente o contrário. Houve épocas da nossa História em que a sua verdadeira natureza pôde expandir-se sem cair no ridículo, mas há outras em que não. E então, para se defender desse ridículo, o português parece essa pessoa modesta, cordata, que não levanta demasiados problemas, seja aos regimes seja na sua vida particular» Pois é tempo de nos envaidecermos do que é nosso e não termos medo de reagir aos imbecis e aos pusilânimes.