Há pouco tempo, um director de uma empresa dizia-me o que achava ideal para Portugal. Mais trabalho, maior produtividade, reconhecimento do mérito, mudança de sistema político e revisão do sistema e do nosso aparelho na Justiça.
Registo para quem tem memória que o melhor Procurador Geral da República que tivemos, apesar de muito polémico, foi Cunha Rodrigues. O que dá de imediato a ideia da péssima figura que Souto Moura e Pinto Monteiro têm dado das nossas instâncias judiciais.
No capítulo da política e do nosso sistema, registo uma frase de Adelino Maltez que dizia que em Portugal «se assiste à banalização do mal». O que releva que os tempos são de cansaço, descrédito e perplexidade com tudo o que envolve o nosso sistema de poder.
Em Itália houve uma operação “Mãos Limpas”, por cá já ouvi alguns falar nisso. Mas esse é mais um sintoma do radicalismo com que a populaça observa a salivar cada uma das histórias sinistras que envolvem políticos e outras personalidades que se envolvem com eles, como é o triste caso de Luís Figo que se deixou enredar numa trama de que as conversas entre Paulo Penedos e Marcos Perestrelo dão conta.
Portugal começa a habituar-se, de facto, ao mau, por cá não é o triunfo dos porcos é o triunfo dos medíocres, dos carreiristas, dos que nada fazem para chegar a um poder que lhes é dado por serem os serventuários das personalidades mais famosas.
Continuo a adorar o nosso país, a nossa cultura, a nossa maneira de ser, mas continuo a achar Portugal um país medíocre. Sem brilho, com memória passada mas preso no fado. Triste e pejado de carpideiras.
Há verdadeiramente muito pouco de novo em Portugal. O mérito é de quem é vigarista, chico-esperto, sabujo. Sempre foi assim. Deixámos de produzir “reis” fortes – já não existe um D. João II – e só nos sai Sebastiões ou D. Afonso VI ou D. Sancho II. Os nossos “reis” são fracos e medíocres.
Não existe uma estratégia portuguesa, não há visão global, vivemos carregados de contabilistas e produzimos muito poucos gestores com rasgo e génio.
Portugal não pode continuar assim. Precisamos de gente mais qualificada, que leia mais, que conheça mais o mundo. Pois continuamos provincianos e nada cosmopolitas.
Portugal perde todos os anos para os últimos países a aderirem à União Europeia. É uma vergonha.
Seguimos resignados a dizer: «é o que temos». Está errado não podemos pactuar com o mau nem tergiversar face ao medíocre.
Portugal precisa de uma nova esperança e de uma nova alma. Vamos ver os próximos capítulos.
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quarta-feira, 14 de abril de 2010
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
À deriva *
Portugal está numa encruzilhada em que, obrigatoriamente, vai ter de se definir.
Portugal perdeu, pois trocou, um Governo de maioria absoluta por um de relativa ingovernabilidade.
Portugal está numa fase em que desacredita de si mesmo e de quem o governa. Quem nos governa perde milhares de horas com casamentos de homossexuais – respeito imenso – sem encontrar resposta nem uma poção mágica para os nossos problemas.
Mas Sócrates, apesar das inconsistências e da inexistência de centelha reformadora, está sossegado pois a sua oposição aguarda um congresso que será de catarse para se encontrar um momento agregador e purificador.
O PSD tem uma líder mas quer outro líder. Todos querem ser líderes, mas ninguém se assume. Um notável jogo de sombras e de omissões está a marcar este palco do PSD, um momento muito interessante para quem gosta destas coisas e que augura um congresso muito emocional, mais à medida dos melhores tribunos.
Daí que seja cada vez mais importante o que se vai passar na corrida a Belém. Cavaco Silva - nenhum Presidente deixou de se recandidatar desde Ramalho Eanes - tem garantido o apoio em uníssono do centro-direita. Ele que tem sido um contra-poder do Governo e que mantém ora paz e amor com Sócrates ou uma relação tensa.
O curioso é o que se passa à esquerda. Manuel Alegre – que dá grande entrevista à Frontline nesta edição – será o único candidato com força agregadora, capaz de unir toda a esquerda. Mas o PS pensará, a união da esquerda pode fazer perder o centro, daí as últimas declarações de Alegre que já vai dizendo que tem muitos apelos para se candidatar de pessoas do centro e da direita.
A ciência política ensina que quando há frentes polarizadas e unidas, isso pode assustar o centro. Sócrates nunca repeliu o centro e essa é a lição que leva alguns socialistas a preferir outro candidato.
Nomeadamente os soaristas que não esquecem o que passou o pai da democracia nas últimas presidenciais em que teve uma mancha no currículo ficando em terceiro lugar e ainda contando com o apoio do PS.
Pessoalmente, continuo a achar muito difícil este combate para Manuel Alegre. Cavaco tem mais experiência política num momento de grave crise que atravessa o país. Alegre lá vai dizendo, e bem, que um Presidente não governa. É um facto, mas é uma referência de estabilidade e nós portugueses, apesar da aprovação de algumas leis sobre temas fracturantes, ainda somos muito conservadores.
Mas enquanto estas lutas e cenários se vão acentuar, Portugal continua à deriva.
PS: Publicado na Frontline deste mês
Portugal perdeu, pois trocou, um Governo de maioria absoluta por um de relativa ingovernabilidade.
Portugal está numa fase em que desacredita de si mesmo e de quem o governa. Quem nos governa perde milhares de horas com casamentos de homossexuais – respeito imenso – sem encontrar resposta nem uma poção mágica para os nossos problemas.
Mas Sócrates, apesar das inconsistências e da inexistência de centelha reformadora, está sossegado pois a sua oposição aguarda um congresso que será de catarse para se encontrar um momento agregador e purificador.
O PSD tem uma líder mas quer outro líder. Todos querem ser líderes, mas ninguém se assume. Um notável jogo de sombras e de omissões está a marcar este palco do PSD, um momento muito interessante para quem gosta destas coisas e que augura um congresso muito emocional, mais à medida dos melhores tribunos.
Daí que seja cada vez mais importante o que se vai passar na corrida a Belém. Cavaco Silva - nenhum Presidente deixou de se recandidatar desde Ramalho Eanes - tem garantido o apoio em uníssono do centro-direita. Ele que tem sido um contra-poder do Governo e que mantém ora paz e amor com Sócrates ou uma relação tensa.
O curioso é o que se passa à esquerda. Manuel Alegre – que dá grande entrevista à Frontline nesta edição – será o único candidato com força agregadora, capaz de unir toda a esquerda. Mas o PS pensará, a união da esquerda pode fazer perder o centro, daí as últimas declarações de Alegre que já vai dizendo que tem muitos apelos para se candidatar de pessoas do centro e da direita.
A ciência política ensina que quando há frentes polarizadas e unidas, isso pode assustar o centro. Sócrates nunca repeliu o centro e essa é a lição que leva alguns socialistas a preferir outro candidato.
Nomeadamente os soaristas que não esquecem o que passou o pai da democracia nas últimas presidenciais em que teve uma mancha no currículo ficando em terceiro lugar e ainda contando com o apoio do PS.
Pessoalmente, continuo a achar muito difícil este combate para Manuel Alegre. Cavaco tem mais experiência política num momento de grave crise que atravessa o país. Alegre lá vai dizendo, e bem, que um Presidente não governa. É um facto, mas é uma referência de estabilidade e nós portugueses, apesar da aprovação de algumas leis sobre temas fracturantes, ainda somos muito conservadores.
Mas enquanto estas lutas e cenários se vão acentuar, Portugal continua à deriva.
PS: Publicado na Frontline deste mês
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