quinta-feira, 13 de abril de 2017

Agustina e o anormal holandês

As redes sociais vibraram com piadas sobre as declarações de um holandês inadjectivável, como diria o João Bénard da Costa, que se referiu estupidamente a Portugal. Na sua estupidez de quem foi arrasado nas últimas legislativas e na pequenez de quem já adulterou o seu próprio currículo, revelou uma visão pequena e mesquinha do seu próprio carácter.
Portugal deu mundos ao mundo, é um dos clichés mais verdadeiros que alguém inventou. Mas a epopeia pelos mares de um pequeno País, que só podia crescer pela via marítima, que fez das suas fraquezas forças e com sagacidade e engenho levou os valores ocidentais por todos os hemisférios devia ser mais estudada e respeitada.
Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e Bartolomeu Dias não têm hoje a notoriedade de Rembrandt, Vermeer ou Van Gogh, se calhar devíamos fazer mais para a projecção da nossa História, é certo. Mas a sua relevância para a globalização será eterna. Não é um labrego holandês que nos tira o orgulho pelos feitos outrora realizados.
Não gastamos em «mulheres e copos», aliás, muitas famílias portuguesas vivem dificuldades para pôr o pão na mesa e levar uma vida com alguma qualidade. Não somos um País rico, somos é há décadas um País mal governado onde quem devia cuidar de nós em pouco tempo passa dos aparelhos partidários para a mesa do Ritz e para as comissões das negociatas à mama do Estado. Vejo muitos milionários que andavam com uma mão à frente e outra atrás antes de passarem por Governos, isso vejo.
Mas os portugueses não enriqueceram. Longe disso. E triste fico, e todos deviam ficar, quando lemos que a editora de Agustina Bessa-Luis, a Babel, acha muito caro o valor mensal de 1.500 euros que paga a uma mulher de mais de 90 anos e que está doente. Isso é chocante quando se toca numa das maiores escritoras de língua portuguesa.
Agustina é património português, a riqueza da sua escrita é tão superlativa como a grandeza dos nossos Descobrimentos. Era bom que tantos de nós que gozámos e reagimos a um holandês de caracolinhos que deve ter uma vida cinzenta e medíocre, não deixássemos de reagir a esta degradante e moralmente miserável notícia que vilipendia uma grande mulher e uma grande criadora, uma artista das palavras em português.
A editora diz que Agustina vende pouco. Mas todos se lembram do momento em que Paulo Teixeira Pinto adquiriu a Babel e a exibiu como a jóia da coroa. Eu não me esqueço, tenho memória. Se calhar venderiam mais copos de vinho e facturariam mais com um bordel, seguindo as pisadas do aforismo imbecil do holandês. Isto é lamentável e obscenamente vergonhoso.
Dizia Agustina que «os portugueses são profundamente vaidosos. Quando me dizem que eu sou muito vaidosa, eu, nisso, sinto-me muito portuguesa. (o português) Apresenta uma espécie de capa e de fisionomia de humildade, modéstia, submissão. Mas não é nada disso, é justamente o contrário. Houve épocas da nossa História em que a sua verdadeira natureza pôde expandir-se sem cair no ridículo, mas há outras em que não. E então, para se defender desse ridículo, o português parece essa pessoa modesta, cordata, que não levanta demasiados problemas, seja aos regimes seja na sua vida particular» Pois é tempo de nos envaidecermos do que é nosso e não termos medo de reagir aos imbecis e aos pusilânimes.

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