terça-feira, 5 de julho de 2011

Cabíria e as redes sociais

Cabíria dá nome a uma prostituta nas "Noites de Cabiria", filme de Fellini que deu à sua companheira Giulietta Masina o prémio de melhor interpretação feminina no festival de Cannes, lá pelo final dos anos 50.

Adoro Fellini, quase todos os seus filmes, neste, que me vem muitas vezes à memória, sente-se a solidão de uma mulher que só pretende ser integrada, que lhe tenham uma palavra meiga e que se entrega com ingenuidade e esperança ao primeiro que lhe oferece ligeiros sonhos de se sentir alguém.

O filme arranca com Cabíria sorridente e feliz com um homem que a conduz por um campo até ao atravessar de um rio. Ele, empurra-a para o rio e fica-lhe com a mala e o dinheiro, ela volta, só, para a sua casa. A sua casa de que tanto orgulho tem.

Pelo meio conhece um milionário do cinema, que se cativa com ela, que lhe dá lagosta e caviar, que é sincero com ela. Mas como gato escaldado de água fria tem medo, é mais evasiva do que devia e perde-o.

No final, vive uma paixão, levanta todo o seu dinheiro do banco acreditando num grande amor, mais de 700 mil liras, na altura, se a memória não me falha. Vão passear pela floresta até estarem á beira de um penhasco. Cabíria vê a morte nos olhos do actor François Périer, pressente-a, mas mais do que a morte é a desilusão por se sentir só, uma vez mais. Ele foge com o dinheiro.

Mas na esperança e última chance para a alegria de viver, de que tantas vezes trata Fellini, a cena final do filme tem Cabíria a andar numa floresta onde surgem jovens que cantam e dançam. E a integram. E as lágrimas dão lugar a um novo sorriso de esperança, pois a vida continua.

O que hoje se vê nas redes sociais, onde se partilham notícias, músicas, estados de alma, protestos, é essa mesma vontade de Cabíria. A de muita gente se tentar integrar, fugindo à solidão. "Noites de Cabíria" é apenas a antevisão das sociedades modernas, poderosas nos meios e na capacidade de comunicação, mas onde cada vez mais gente se sente só.

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