«Os nossos líderes não andam a liderar nada, e muito menos a contar-nos o que está a acontecer. É aí que eu entro. Conto às pessoas o que está a acontecer. O importante na nossa sociedade não é o que acontece mas quem conta o que acontece. Vamos deixar que sejam só os políticos a contá-lo? Seria um suicídio, um suicídio nacional. Não, não podemos confiar neles, não podemos ficar-nos pela sua versão»
Juan Gabriel Vásquez, "As Reputações", edição Alfaguara
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
quinta-feira, 7 de janeiro de 2016
A "transparência" da Câmara de Lisboa
A Câmara de Lisboa decidiu criar um grupo de trabalho denominado «Transparência» para propor melhorias na maneira de comunicar entre o município e os cidadãos.
Entendo que todas as iniciativas para melhorar a comunicação e dar-lhe maior transparência são sempre positivas. No caso, não envolve vereadores, apenas três técnicos (um deles, a Maria Louro, pessoa que conheço e prezo), que tentarão dar ideias para que a qualidade e a rapidez da informação esclareça cabalmente os munícipes.
Qual é o único senão desta iniciativa? É que nesse grupo de trabalho não está nenhum especialista em comunicação e assim falta a visão profissional de quem trabalha todos os dias e conhece o relacionamento dos meios (tradicionais e digitais) com empresas, pessoas e instituições.
É bom ouvir as ideias dos técnicos internos, falta é conhecer a visão de quem sabe o que faz e tem a perspectiva do munícipe/cidadão face à qualidade e transparência da informação oriunda da Câmara de Lisboa. A rever e ainda vão a tempo.
Entendo que todas as iniciativas para melhorar a comunicação e dar-lhe maior transparência são sempre positivas. No caso, não envolve vereadores, apenas três técnicos (um deles, a Maria Louro, pessoa que conheço e prezo), que tentarão dar ideias para que a qualidade e a rapidez da informação esclareça cabalmente os munícipes.
Qual é o único senão desta iniciativa? É que nesse grupo de trabalho não está nenhum especialista em comunicação e assim falta a visão profissional de quem trabalha todos os dias e conhece o relacionamento dos meios (tradicionais e digitais) com empresas, pessoas e instituições.
É bom ouvir as ideias dos técnicos internos, falta é conhecer a visão de quem sabe o que faz e tem a perspectiva do munícipe/cidadão face à qualidade e transparência da informação oriunda da Câmara de Lisboa. A rever e ainda vão a tempo.
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
A internet e o embaraço da falsidade
Quem me conhece sabe que todos os dias recolho notas de histórias que me interessam. Algumas esqueço-as, outras, recupero-as. Há pouco tempo atrás, a revista do El Pais conseguiu uma coisa muito rara: uma entrevista com Prince.
Um dos maiores génios da música contemporânea, que nem os seus agentes sabem muito bem onde vive, que toca quando lhe apetece e opta pelo camaleonismo de vestir diversas peles e estilos, só tem por hábito aparecer na sua terra natal, Minneapolis, para ir criar para os seus estúdios, Paisley Park.
Nessa conversa corrida, Prince diz: «Todo a gente percebe quando alguém é negligente, e agora com internet é impossível que um redactor o seja, porque todos o apontariam. Agora é embaraçoso dizer algo falso. Convém-te dizer a verdade».
Esse é um dos lados, quando não raivoso e marcado pela justiça popular, positivos da internet. O escrutínio aumentou, o erro, mas sobretudo a falsidade, são difíceis de esconder. Mas ainda há quem tente enganar as pessoas. Nestas presidenciais em Portugal isso tem sido bem visível.
Um dos maiores génios da música contemporânea, que nem os seus agentes sabem muito bem onde vive, que toca quando lhe apetece e opta pelo camaleonismo de vestir diversas peles e estilos, só tem por hábito aparecer na sua terra natal, Minneapolis, para ir criar para os seus estúdios, Paisley Park.
Nessa conversa corrida, Prince diz: «Todo a gente percebe quando alguém é negligente, e agora com internet é impossível que um redactor o seja, porque todos o apontariam. Agora é embaraçoso dizer algo falso. Convém-te dizer a verdade».
Esse é um dos lados, quando não raivoso e marcado pela justiça popular, positivos da internet. O escrutínio aumentou, o erro, mas sobretudo a falsidade, são difíceis de esconder. Mas ainda há quem tente enganar as pessoas. Nestas presidenciais em Portugal isso tem sido bem visível.
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
A miséria das presidenciais
É penoso o que está a acontecer nestas eleições presidenciais. É uma miséria, é uma vergonha, é uma imbecilidade, diria eu. Vasco Pulido Valente chamou-lhe ontem, no Público, «a galeria dos horrores».
Portugal tem mais de 40 anos de maturidade democrática, promoveu políticos e suas carreiras, gente com talento e outra com menos talento, e chegamos a 2016 com estas criaturas candidatas a Belém. Ainda mais, para quem tem memória, quando é escolhido um Presidente da República para um primeiro mandato, a carga de energia é maior e a capacidade de mobilização e empenho mexia com os portugueses.
Desta vez nada acontece. Os portugueses estão-se marimbando para estas presidenciais, as campanhas são medíocres, os debates são, para lá de uma chatice, absolutamente ridículos. E logo no dia 1 tivemos um espectáculo deprimente que deverá constar na história da política portuguesa: um debate entre Marcelo, Tino, um "orador motivacional" de óculos roxos e um candidato que se levantou e saiu do estúdio, uma anedota triste que corou de vergonha quem o viu.
Portugal é muito mais que esta pornochachada. Merecia muito mais, merecia melhor gente, merecia pelo menos uma ideia. Estas presidenciais são o grau zero da política, um convite à abstenção, um concurso de mister e miss nulidades. É um nada. Quarenta anos depois de Abril é triste.
PS: este é o meu primeiro texto de 2016 no meu blog. Desejo a todos os leitores um excelente 2016 e deixo o compromisso que tentarei escrever pelo menos um texto por dia por esta via, com a mesma liberdade que já vos habituei.
Portugal tem mais de 40 anos de maturidade democrática, promoveu políticos e suas carreiras, gente com talento e outra com menos talento, e chegamos a 2016 com estas criaturas candidatas a Belém. Ainda mais, para quem tem memória, quando é escolhido um Presidente da República para um primeiro mandato, a carga de energia é maior e a capacidade de mobilização e empenho mexia com os portugueses.
Desta vez nada acontece. Os portugueses estão-se marimbando para estas presidenciais, as campanhas são medíocres, os debates são, para lá de uma chatice, absolutamente ridículos. E logo no dia 1 tivemos um espectáculo deprimente que deverá constar na história da política portuguesa: um debate entre Marcelo, Tino, um "orador motivacional" de óculos roxos e um candidato que se levantou e saiu do estúdio, uma anedota triste que corou de vergonha quem o viu.
Portugal é muito mais que esta pornochachada. Merecia muito mais, merecia melhor gente, merecia pelo menos uma ideia. Estas presidenciais são o grau zero da política, um convite à abstenção, um concurso de mister e miss nulidades. É um nada. Quarenta anos depois de Abril é triste.
PS: este é o meu primeiro texto de 2016 no meu blog. Desejo a todos os leitores um excelente 2016 e deixo o compromisso que tentarei escrever pelo menos um texto por dia por esta via, com a mesma liberdade que já vos habituei.
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2015
A "Terapia" da RTP
Tive ontem o privilégio de assistir no Teatro Tivoli à ante-estreia da nova grande aposta da RTP. Chama-se "Terapia" Mas sobretudo, para lá da qualidade da mesma, tenho de enaltecer a verdadeira grande aposta do canal público que é a virtude da criação, sem tabus, de um núcleo consistente de séries.
Escrevi assim aqui no meu blog em 21 de Abril de 2015: « Virgilio Castelo foi o homem escolhido pela nova administração da RTP para liderar o departamento de ficção e pensar o que se deve produzir. Continuo pessoalmente a entender que a RTP deve ser muito mais do que uma cópia dos privados e deve inovar, exactamente, na ficção.
Não só com séries históricas, mas imprimindo um dinamismo na produção nacional que a leve a uma consistente qualidade e conseguindo-a exportar. Por isso é no filão das séries, que hoje agarram muito mais um público esclarecido e jovem, que a RTP deve entrar». (deixo aqui o texto então escrito até porque contém uma sugestão para produção).
Enquanto espectador vejo com muita simpatia esta opção. Enquanto agente do mercado mediático que temos, e numa altura que a imprensa portuguesa vê cortes e situações dramáticas no I, Sol, Público, Diário Económico e onde as televisões também não fogem a reduções impostas pela míngua do mercado publicitário, é um farol de esperança esta aposta.
Mais uma vez a RTP pode ser a mola da indústria televisiva portuguesa, assim se mantenha esta opção pela qualidade. Um dia, há muitos anos atrás mas na nossa galáxia, ninguém acreditaria que os portugueses pudessem criar novelas de qualidade, ao nível das brasileiras. E surgiu a Vila Faia.
Algumas décadas depois, hoje temos a certeza que os portugueses fazem telenovelas de qualidade, com excelentes produções e que já as exportam. Desejo sinceramente que possamos em breve exportar as nossas séries. E estas, como ontem salientaram bem o Gonçalo Reis, o Daniel Deusdado e o Nuno Artur Silva, têm como base de sucesso o guião e os actores.
E nesta "Terapia", para lá da qualidade da produção da SP de António Parente que é cinema puro em televisão, vão ter uma grande história e grandes actores. O primeiro episódio tem Virgilio Castelo, a âncora da série, com nuances extraordinárias e a proporcionar à sua colega de cena, Soraia Chaves, um excepcional desempenho. E ainda lá anda a classe de muitos anos da Ana Zanatti. Mas todo o restante elenco que descobrirão nos episódios seguintes é do melhor que Portugal tem.
Desejo boa sorte á RTP, que não se assustem com audiências, que não se assustem com comentários de redes sociais que não interessam a ninguém. Que sigam este rumo consistente, a qualidade trará o sucesso,
Escrevi assim aqui no meu blog em 21 de Abril de 2015: « Virgilio Castelo foi o homem escolhido pela nova administração da RTP para liderar o departamento de ficção e pensar o que se deve produzir. Continuo pessoalmente a entender que a RTP deve ser muito mais do que uma cópia dos privados e deve inovar, exactamente, na ficção.
Não só com séries históricas, mas imprimindo um dinamismo na produção nacional que a leve a uma consistente qualidade e conseguindo-a exportar. Por isso é no filão das séries, que hoje agarram muito mais um público esclarecido e jovem, que a RTP deve entrar». (deixo aqui o texto então escrito até porque contém uma sugestão para produção).
Enquanto espectador vejo com muita simpatia esta opção. Enquanto agente do mercado mediático que temos, e numa altura que a imprensa portuguesa vê cortes e situações dramáticas no I, Sol, Público, Diário Económico e onde as televisões também não fogem a reduções impostas pela míngua do mercado publicitário, é um farol de esperança esta aposta.
Mais uma vez a RTP pode ser a mola da indústria televisiva portuguesa, assim se mantenha esta opção pela qualidade. Um dia, há muitos anos atrás mas na nossa galáxia, ninguém acreditaria que os portugueses pudessem criar novelas de qualidade, ao nível das brasileiras. E surgiu a Vila Faia.
Algumas décadas depois, hoje temos a certeza que os portugueses fazem telenovelas de qualidade, com excelentes produções e que já as exportam. Desejo sinceramente que possamos em breve exportar as nossas séries. E estas, como ontem salientaram bem o Gonçalo Reis, o Daniel Deusdado e o Nuno Artur Silva, têm como base de sucesso o guião e os actores.
E nesta "Terapia", para lá da qualidade da produção da SP de António Parente que é cinema puro em televisão, vão ter uma grande história e grandes actores. O primeiro episódio tem Virgilio Castelo, a âncora da série, com nuances extraordinárias e a proporcionar à sua colega de cena, Soraia Chaves, um excepcional desempenho. E ainda lá anda a classe de muitos anos da Ana Zanatti. Mas todo o restante elenco que descobrirão nos episódios seguintes é do melhor que Portugal tem.
Desejo boa sorte á RTP, que não se assustem com audiências, que não se assustem com comentários de redes sociais que não interessam a ninguém. Que sigam este rumo consistente, a qualidade trará o sucesso,
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
O lado Paulo Portas de Luis Filipe Vieira
«Se no futuro podemos voltar a ter os jogos na Sport Tv? Acho que não é possível os jogos regressarem à Olivedesportos. Este projeto da Benfica TV é irreversível»
Luís Filipe Vieira em 27 de Maio de 2015, no site 'Mais Futebol (agradeço a lembrança do Mário Rui)
Agora troquem a palavra «irreversível» dita por Vieira e coloquem a famosa palavra «irrevogável» dita por Paulo Portas. É a mesma coisa. Para o ano os jogos do Benfica dão na NOS (que detém 50% da Sport TV) e no canal de Joaquim Oliveira. Paulo Portas também voltou ao Governo, para quem não se lembra da história.
Luís Filipe Vieira em 27 de Maio de 2015, no site 'Mais Futebol (agradeço a lembrança do Mário Rui)
Agora troquem a palavra «irreversível» dita por Vieira e coloquem a famosa palavra «irrevogável» dita por Paulo Portas. É a mesma coisa. Para o ano os jogos do Benfica dão na NOS (que detém 50% da Sport TV) e no canal de Joaquim Oliveira. Paulo Portas também voltou ao Governo, para quem não se lembra da história.
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
A "Caras" de António Costa
O primeiro momento comunicacional de um novo Primeiro-Ministro marca uma maneira de encarar o poder e também a sua relação momentânea com o povo. António Costa optou por uma produção com a "Caras", a revista de maior reputação do segmento cor-de-rosa e que lhe deu honras de capa, o que é natural.
Porquê a Caras? Perguntaram muitas centenas de pessoas nas redes sociais, porque não noutra publicação ou media? No meu entender por dois motivos:
1- António Costa não ganhou eleições, não há nenhuma onda de simpatia com ele, o processo que o ungiu a PM deixou muitos portugueses de pulga atrás da orelha. Assim, Costa optou por um momento para tentar ganhar empatia com a sua família junto das famílias portuguesas, e, especialmente, das mulheres. Em vez de uma mensagem política, de uma entrevista recheada de números, Costa escolheu tentar conquistar o coração e não podia ter escolhido melhor meio. Se o conseguiu, isso tão cedo não se consegue descortinar.
2- Diz-me a experiência pessoal que esta época do Natal é boa para os políticos fazerem primeiras páginas familiares em revistas "del corazon" e há edições especiais, inclusive da Caras. O impacto em banca é bom e é uma maneira de entrarem nas casas dos portugueses. E da parte deles a recepção é sempre melhor nesta altura de paz e concórdia do que possivelmente noutras épocas do ano.
Porém, há um factor que hoje em dia condiciona muito as manobras clássicas de comunicação política, como é o caso desta produção de António Costa: são as redes sociais. O impacto em banca, como já mencionei, é poderoso, mas a sua repercussão nas redes pode dividir tropas. Os que apoiam o Governo gostam os que agora passaram à oposição reputam esta operação de caricata. É neste limbo de notoriedade e reputação, comunicação política clássica versus. comunicação digital que todas as manobras devem ser pensadas e os políticos ainda não compreendem bem as redes sociais.
Porquê a Caras? Perguntaram muitas centenas de pessoas nas redes sociais, porque não noutra publicação ou media? No meu entender por dois motivos:
1- António Costa não ganhou eleições, não há nenhuma onda de simpatia com ele, o processo que o ungiu a PM deixou muitos portugueses de pulga atrás da orelha. Assim, Costa optou por um momento para tentar ganhar empatia com a sua família junto das famílias portuguesas, e, especialmente, das mulheres. Em vez de uma mensagem política, de uma entrevista recheada de números, Costa escolheu tentar conquistar o coração e não podia ter escolhido melhor meio. Se o conseguiu, isso tão cedo não se consegue descortinar.
2- Diz-me a experiência pessoal que esta época do Natal é boa para os políticos fazerem primeiras páginas familiares em revistas "del corazon" e há edições especiais, inclusive da Caras. O impacto em banca é bom e é uma maneira de entrarem nas casas dos portugueses. E da parte deles a recepção é sempre melhor nesta altura de paz e concórdia do que possivelmente noutras épocas do ano.
Porém, há um factor que hoje em dia condiciona muito as manobras clássicas de comunicação política, como é o caso desta produção de António Costa: são as redes sociais. O impacto em banca, como já mencionei, é poderoso, mas a sua repercussão nas redes pode dividir tropas. Os que apoiam o Governo gostam os que agora passaram à oposição reputam esta operação de caricata. É neste limbo de notoriedade e reputação, comunicação política clássica versus. comunicação digital que todas as manobras devem ser pensadas e os políticos ainda não compreendem bem as redes sociais.
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