segunda-feira, 15 de outubro de 2012

A campanha e o resultado nos Açores

Vários pontos de reflexão sobre a campanha e os resultados dos Açores:

1- Mais de 52 por cento de abstenção. Um alheamento assinalável dos açorianos. E mais assinalável porque existia a saída de um dinossauro no poder: Carlos César. Portanto, para lá dos que desacreditam nos políticos tradicionais e não confiam nas suas soluções, a mensagem de mudança não passou.

2-  Num partido que está no poder há 16 anos, vê sair o seu líder e obtém uma maioria absoluta, isso é uma vitória estrondosa e uma derrota inequívoca de todos os outros partidos, e há mérito de Vasco Cordeiro e nem foi preciso cantar o fado de Coimbra, apenas mostrou que era melhor e mais conhecedor dos problemas.

3- É óbvio que houve reflexo local na crise que se vive em Portugal. Mas isso não explica tudo. O resultado é um cartão amarelo a Passos Coelho, que julgo se irá alargar às autárquicas, onde poderão florescer mais candidaturas independentes e vários movimentos cívicos contra os partidos tradicionais.

4- Berta Cabral tinha a missão de alterar o ciclo político. Quando sai um líder histórico isso é mais fácil, foi assim com Mota Amaral e este era o momento com a saída de César. Agora, para o PSD tudo será mais difícil. E não nos esqueçamos, também, que ela há poucos meses era dada como uma candidata imbatível.

5- Berta Cabral seguiu uma estratégia de apagamento da sua ligação ao PSD. Podíamos dizer que era uma estratégia óbvia e que ela se irá replicar em muitas candidaturas autárquicas. Chegou a apagar o símbolo do partido na sua propaganda e fez declarações a libertar-se do caminho do PSD no Governo e do seu líder, Passos Coelho. Isso fica provado que é um caminho errado. O eleitorado indeciso valoriza três coisas: credibilidade, confiança e lealdade. Berta foi desleal com o seu partido de sempre, isso não agrada a um eleitorado indeciso e esclarecido.

6- Recorro aos meus apontamentos de campanha. Primeiro dia oficial de campanha e os temas escolhidos pelos candidatos. Vasco Cordeiro escolheu o emprego. Berta Cabral escolheu a reabilitação urbana. Pergunta de retórica: mas qual era o partido que estava no poder? Exactamente, o que estão a pensar, quem devia ter falado logo no emprego que é o tema que mais importa ao arquipélago era a candidata da mudança. E ela só o fez na recta final de campanha, prometendo a criação de 15 mil empregos, menos um zero do que Sócrates prometeu e não cumpriu. Pareceu promessa tardia, quando devia ter sido a prioridade.

7- Cada campanha quando não é nacional é um micrososmos. Quando se aplicam técnicas nacionais, válidas, mas não se conhece bem o terreno há uma dispersão de mensagem que afecta o resultado final. Vasco Cordeiro mostrou sempre maior proximidade aos problemas dos açorianos, aquelas duas imagens subliminares dele ter sido agricultor como os seus pais (agricultura é fundamental nos Açores) e de andar muito depressa que até cansava quem o acompanhava, como se tivesse pressa em resolver os problemas, foram magistrais. Faltu muita ratice na campanha do PSD e o PS venceu estrondosamente.

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